Eu sabia que a semana passada não ia ser boa. Sempre achei uma frescura as pessoas dizerem que pressentem as coisas, mas sério, como eu tava me sentindo mal todos os dias. Um desânimo, enjôo, dor de cabeça, sei lá, cada dia eu sentia uma coisa e isso não é normal porque é raro eu ficar assim.
Ninguém gosta de pensar na morte, dá um medo, um frio na barriga que não é nada agradável. É óbvio que nós sabemos que vamos ficar tristes caso alguém próximo a nós venha a falecer. Mas foi infinitamente pior do que eu pensei. Morte é algo definitivo. Não é igual aos nossos problemas que por maiores que sejam, sempre haverá uma solução. Pra morte, não há. E pra gente aguentar isso? Até agora parece que não aconteceu realmente. Minha ficha não caiu completamente e eu vi tudo com os meus próprios olhos.Quando minha mãe me contou, eu não conseguia acreditar. Eu tinha acabado de acordar, parecia que eu ainda tava dormindo, que meu sono tinha se estendido para um pesadelo. Eu nem sei dizer o que eu senti. Uma pessoa tão próxima, que eu tinha conversado por telefone naquela mesma semana e ele tinha me dito que a medula tinha pego! Nossa, eu nem acreditei. Talvez se isso tivesse acontecido há um mês atrás...mas não, não naquela semana.
Depois que eu parei pra pensar, realmente, a nossa conversa não tinha sido tão boa assim, ela permaneceu morna o tempo inteiro. Quando o Felipe se internou no INCA, eu que ligava pra ele, na maioria das vezes. A conversa começava meio morna, eu perguntava o de sempre 'como vc tá?' e SEMPRE vinha a mesma resposta que eu adorava ouvir 'tô ótimo! e você?', e eu 'sério? nenhum enjôo, dor de cabeça, nenhum efeito colateral?' e a resposta 'não, nenhum!', daí perguntava que filmes ele tinha visto na semana e ele me perguntava como tava a faculdade. No começo, era assim. Depois eu começava a me soltar, colocava ele a par de tudo que acontecia na nossa turma da PUC e de tudo que acontecia na minha vida. Ríamos tanto juntos! Ele tinha uma paciência de jó para me aguentar contando, reclamando, xingando, chorando e tudo o mais. Sempre me ouvia com a maior atenção. Quando eu estava puta com alguma coisa ou alguém, ele simplesmente falava 'ah apple, não é tão assim..relaxa'. (ps: apple era como ele me chamava, esse apelido surgiu só porque um dia ele me chamou de maçã em vez de moça. Enfim, aí pegou, era uma das nossas bobagens.)
Passamos tantos momentos juntos. Cada dia eu lembro de um ou vários diferentes. É difícil pensar, na verdade, eu tento não pensar. Eu tô pra escrever esse texto desde sábado passado, mas eu estava com medo de escrever. Sei que é um pouco de covardia minha, mas é tão ruim lembrar nessas circunstâncias. Acho que agora, depois de noites muito mal dormidas, eu me senti preparada.
Com certeza, o Felipe me conquistou pelas nossas conversas. Conversávamos até 6hs da manhã no msn e sempre tinha assunto! Eu falo muito e ele também, então, já viu. Lembro que uma vez ele me desenhou no msn com a minha perna toda cabeluda! HAHAHAHAHA, foi logo no começo e cara, foi uma das vezes que eu mais ri no msn na minha vida. Eu até tirei print screen, mas tá no outro pc.
Lembro que a primeira vez ele foi internado e estava comigo, eu fiquei desesperada! Sei lá, não tinha noção dessas coisas. Pra mim, internar era uma coisa assim, seríííssima. Foi logo um dia antes d'eu viajar. Me lembro que perdi completamente a vontade de viajar. Só queria ficar ao seu lado.
Lembro do meu aniversário, nesse mesmo mês, eu liguei pra ele chorando, dizendo que tava chovendo e que ninguém mais ia. Ele tava com febre, vomitando direto, supermal, mas foi..contra a vontade dos pais, mas foi! Ele fazia de tudo pra me ver feliz e eu sempre dei um valor imenso a isso.
Lembro de quando eu me hospedei na casa dele no carnaval. O carnaval rolava lá fora e nós dois, viciados, jogando Resident Evil IV no PS2. Já até brigamos por causa disso porque eu passei de uma fase e ele não tava no quarto pra ver. Hahaha, brigamos sério mesmo.
Lembro dos jogos do Flamengo que assistíamos juntos. Era tão bom a gente torcer pro mesmo time! Ele xingava os caras, mandava passar a bola, essas coisas que todo homem fala. Aí eu falava 'cara, pára de gastar saliva a toa, eles tão longe pra cacete da gente..não vão te ouvir nunca!'(o que toda mulher fala também) hahaha aí ele dizia que eu era uma chata e geralmente vinha me dar um beijo. =) Ah! Principalmente quando o Flamengo ganhou o carioca! Vimos com a Larissa e o Adriano. Foi DEMAIS! Nervosismo, agitação, muitos berros e muita, mas muita alegria! Só de lembrar, até me arrepio.
Lembro de todas as vezes que eu ia no hospital vê-lo. Parecia que ele sabia quando eu estava chegando. Quando eu entrava no quarto, ele sempre estava sentado na cama. Na mesma hora que eu abria a porta, ele olhava pra mim, abria os braços e eu ia correndo abraçá-lo! (até esquecia de lavar as mãos. Desculpa, Maitê!) Sei que eu ficava lá durante muito tempo, víamos filmes, jogávamos trocentos tipos de jogos de tabuleiro, inclusive banco imobiliário que ele SEMPRE ganhava. Mas, em compensação, perdia no guitar hero e no need for speed pra mim! Hahaha, adoraaaava zoá-lo por causa disso! Ainda mais que ele era supercompetitivo.
Lembro de quando a gente não tinha nada pra fazer e aí ele resolvia ir no quarto da Juliana encher o saco dela. Coitada! Lá ia eu e ele nos apossar do quarto dela e atrapalhar o que ela estivesse fazendo. Sempre muito carinhoso, ele dava uns chutes nela, brincava de lutinha, chacoalhava ela. Enfim, tudo que um irmão mais velho e chato faz. Mas aí ela falava 'Paaaara, Phiiiil' e como ele AMAVA esse apelido, acho que ele até parava.
Lembro das nossas brigas. A maioria era por algum motivo besta, é claro. Mas também tinha as que eu reclamava do quanto ele era irresponsável. E eu sempre falava que ele tinha que dá valor aos pais maravilhosos que tinha por mais que ele achasse desnecessário tanta preocupação.
Sei lá, eu já lembrei de muita coisa. Coloquei aqui as que eu lembrei agora, talvez sejam as mais importantes. Talvez falte alguma, mas eu quero um dia reler e lembrar do quanto foi bom ter passado todo esse tempo ao lado dele. Do quanto ele me fez feliz, do quanto a gente se gostava, do quão era bom passar meus dias ao seu lado. Era tão fácil conviver com ele! O ser humano mais evoluído que eu já conheci. Por mais grave que fosse a doença dele, ele sempre estava bem, nunca se abalava. Foi exatamente o que o primo dele falou. Íamos no hospital preocupados, mas ele nos fazia esquecer de qualquer preocupação. Justamente por nunca estar abatido, NUN-CA! Eu me considero uma das pessoas mais sortudas do mundo por tê-lo conhecido. Por ter conhecido a família maravilhosa dele também, sério, todos! Sinceramente, eu não vou nem desejar força a vocês porque assim como ele tinha, eu sei que todos vocês tem de sobra.
Vou sempre carregar uma saudade imensa dele no meu coração! Mas agora, ao lembrar dele, em vez de chorar, eu sorrio. Obrigado por tudo, Felipe! Você foi mesmo um guerreiro e, com toda certeza, a melhor pessoa que eu já conheci na vida.